
Você está em uma taverna movimentada. Um mapa antigo é colocado sobre a mesa, enquanto um grupo discute a melhor rota para atravessar um território desconhecido. Cada decisão pode mudar o rumo da história. E se essa experiência também fosse uma forma de aprender?
Para muitos jogadores, essa cena remete a sistemas clássicos como Dungeons & Dragons ou narrativas investigativas como Call of Cthulhu — jogos que há décadas exploram o potencial da imaginação coletiva.
É exatamente nesse ponto que RPGs e educação se encontram. Os jogos de mesa deixaram de ser apenas entretenimento para se consolidar como ferramentas poderosas no desenvolvimento de habilidades cognitivas, socioemocionais e criativas.
Assim como jogos digitais modernos valorizam escolhas e consequências, o RPG de mesa coloca o participante como protagonista do aprendizado, tornando o processo mais ativo, envolvente e significativo.

Entre mapas e dados na educação. (Foto: Nika Benedictova / Pexels).
Os RPGs de mesa são jogos narrativos colaborativos em que os participantes interpretam personagens dentro de uma história construída em conjunto. Um jogador assume o papel de mestre, responsável por conduzir a narrativa, enquanto os demais tomam decisões que moldam o mundo ao seu redor por meio de seus personagens.
Diferentes sistemas oferecem experiências distintas. Enquanto Dungeons & Dragons utiliza regras mais estruturadas e progressão de personagem, sistemas como FATE Core System priorizam a narrativa e a flexibilidade das ações.
Essa lógica aberta transforma o RPG em uma experiência de aprendizagem ativa, em que o conhecimento é construído na prática. Em vez de apenas receber conteúdo, o jogador precisa interpretar, decidir, argumentar e resolver problemas — habilidades diretamente ligadas ao ambiente educacional.
Dentro da dinâmica dos RPGs e educação, o papel do mestre é fundamental para o desenvolvimento de competências complexas.
Segundo Tiago Vinicius Ficagna, professor do curso de Design de Games da Univali, o mestre atua como um facilitador da experiência:
“O Mestre é um gestor de projetos. Ele precisa preparar conteúdo, gerenciar tempo, mediar conflitos entre jogadores, garantir que todos tenham seu tempo de jogo e adaptar-se quando as coisas saem do planejado.”
Essa função exige liderança, organização do pensamento e flexibilidade. Em muitos aspectos, o mestre se aproxima de funções do mercado contemporâneo, como facilitadores de equipes ágeis, responsáveis por remover obstáculos e estimular a colaboração.
Já os jogadores desenvolvem autonomia, criatividade, pensamento estratégico e trabalho em grupo, lidando com desafios que não possuem respostas únicas — algo comum em contextos acadêmicos e profissionais.

Imaginação e muito mais. (Foto: Will Wright / Pexels).
O uso de RPGs de mesa na educação permite trabalhar múltiplas competências cognitivas de forma integrada e contextualizada.
Entre as principais habilidades estimuladas estão o raciocínio lógico-dedutivo, o cálculo mental, a compreensão de texto e o pensamento lateral. Como explica Ficagna:
“Raciocínio lógico-dedutivo, cálculo mental, compreensão de texto e pensamento lateral são habilidades fundamentais que podem ser trabalhadas de forma lúdica.”
Essas competências não aparecem de forma isolada, mas combinadas em situações complexas — o que aproxima o RPG de cenários reais, onde problemas exigem análise, adaptação e criatividade.
Além disso, o RPG contribui para a inclusão educacional:
“Alguns alunos têm mais ou menos facilidade em cada uma dessas áreas, então é ótimo poder estimular cada uma dessas habilidades de forma lúdica e respeitando o tempo de cada pessoa.”
Essa flexibilidade também se reflete na escolha de sistemas. Jogos mais simples, como Lasers & Feelings, reduzem a complexidade matemática e priorizam decisões narrativas, tornando a experiência mais acessível.
Ficagna também ressalta a importância da adaptação:
“Alunos com discalculia ou dislexia podem se sentir desencorajados se o sistema for focado apenas em estatísticas e leitura densa, mas os jogos de RPG possuem diversos sistemas possíveis de interação.”

Além do jogo. (Foto: CompLady / Pixabay).
Outro ponto central dos RPGs e educação está no desenvolvimento de habilidades socioemocionais.
Durante as sessões, os participantes exercitam empatia, cooperação, escuta ativa e liderança. Mais do que isso, aprendem a lidar com diferenças e a construir soluções coletivas.
Ficagna destaca essa mudança de lógica:
“Ao invés da competição nociva pelas melhores notas, o RPG ensina que a vitória do grupo depende das habilidades únicas de cada um.”
Esse modelo colaborativo aproxima o RPG de dinâmicas reais de equipes multidisciplinares, preparando os alunos para contextos profissionais cada vez mais interdependentes.

Aprender jogando. (Foto: NWimagesbySabrinaE / Pixabay).
A relação entre RPGs e educação se fortalece ao ser analisada sob a ótica das metodologias ativas.
“No PBL (Problem-Based Learning), o aluno recebe um desafio e deve buscar o conhecimento para resolvê-lo — isso é exatamente a definição de uma ‘Quest’ de RPG”, explica Ficagna.
Em muitos sistemas, como Dungeons & Dragons, essas quests estruturam a progressão da experiência, funcionando como problemas que precisam ser resolvidos coletivamente.
Essa abordagem transforma o aluno em protagonista e o professor em facilitador:
“O professor deixa de ser o detentor de todo o conhecimento e passa a ser apenas o facilitador.”
Em modelos como a sala de aula invertida, o potencial se amplia:
“O aluno lê o ‘lore’ em casa e vai para a sala apenas para ‘jogar’, aplicando a prática.”
Um dos maiores diferenciais dos RPGs e educação é a capacidade de integrar múltiplas áreas do conhecimento em uma única experiência.
“O RPG permite interdisciplinaridade profunda. Em uma sessão sobre navegações, o aluno aprende História, Geografia, Matemática e Física de forma imersiva”, afirma Ficagna.
Dependendo do sistema escolhido, essa experiência pode ganhar novas camadas. Jogos investigativos como Call of Cthulhu, por exemplo, estimulam análise crítica, interpretação de contexto e tomada de decisão baseada em evidências.
Esse tipo de abordagem torna o aprendizado mais significativo, pois conecta teoria e prática de forma natural.
Apesar do potencial, a aplicação dos RPGs na educação formal ainda enfrenta desafios.
“O tempo de sala de aula é curto para sessões tradicionais de RPG, e um professor sozinho tem dificuldade em ser mestre para muitos alunos”, aponta Ficagna.
Ainda assim, soluções vêm sendo desenvolvidas, como plataformas digitais e sistemas simplificados que permitem adaptar o RPG a turmas maiores e diferentes contextos educacionais.
Esse movimento dialoga com práticas adotadas por instituições como a Universidade do Vale do Itajaí (Univali), que investigam metodologias inovadoras voltadas ao desenvolvimento cognitivo e colaborativo.
Nesse cenário, os RPGs se destacam como ferramentas que estimulam pensamento crítico, resolução de problemas e trabalho em equipe — competências essenciais para a formação acadêmica contemporânea.
Além disso, o uso de ferramentas digitais amplia essas possibilidades:
“Ferramentas como Miro e Notion estão sendo usadas junto com frameworks de RPG para mapear visualmente a contribuição colaborativa de cada aluno.”
Os RPGs de mesa mostram que aprender pode ser tão envolvente quanto jogar. Ao unir narrativa, estratégia e colaboração, eles criam experiências em que o conhecimento é construído de forma ativa e significativa.
Em um cenário onde aprender exige cada vez mais autonomia, criatividade e pensamento crítico, os RPGs deixam de ser apenas jogos — e passam a representar um modelo possível para o futuro da educação.
Para quem vive o universo gamer, a conclusão é clara: aquilo que começa em uma mesa de RPG pode desenvolver habilidades reais, aplicadas muito além do jogo.
Para saber mais sobre essas formações, acesse o site da Univali. E para continuar acompanhando conteúdos sobre games, cultura geek e inovação, siga ligado na ND Games.