
Em agosto de 2026, o Discord se tornou protagonista de um dos maiores casos de fiscalização do ECA Digital (Lei nº 15.211/2025). A ANPD determinou, em medida preventiva, que a plataforma suspendesse suas transmissões ao vivo no Brasil, após concluir que a funcionalidade vinha sendo usada de forma recorrente para graves violações contra crianças e adolescentes.
O ECA Digital está em vigor desde 17 de março de 2026. Ele impôs às plataformas o dever de proteger crianças e adolescentes desde a concepção do serviço e atribuiu a fiscalização a uma autoridade administrativa autônoma, papel exercido pela ANPD.
Antes dele, sob o regime geral do art. 19 do Marco Civil da Internet, a responsabilização das plataformas dependia, em regra, de ordem judicial prévia. É esse novo arranjo que permite à ANPD agir de forma preventiva e administrativa, como fez no caso Discord.

Discord (Imagem: Divulgação).

Plataforma do Discord (Imagem: Divulgação).
Segundo a imprensa, mais de sessenta entidades manifestaram apoio à atuação da ANPD.
O fundamento central é o art. 6º, incisos II e III, do ECA Digital, que exige medidas razoáveis, desde a concepção e ao longo da operação, para prevenir e mitigar riscos de exposição de menores a violência, assédio e, sobretudo, indução ou auxílio à automutilação e ao suicídio.
A apuração vai além das lives. Segundo a ANPD, também estão em análise a falta de mecanismos efetivos de aferição de idade (arts. 10 e 17), falhas na remoção de conteúdo violador (art. 29) e na comunicação às autoridades (art. 28). As sanções do art. 35 incluem advertência, multa de até R$ 50 milhões por infração, suspensão e proibição de atividades.

Discord (Imagem: Divulgação).
Pela arquitetura do Discord, a plataforma não acessa o conteúdo das transmissões enquanto elas acontecem, o que inviabiliza a detecção de violações em tempo real. Restam sistemas automatizados apontados como falhos e as denúncias dos próprios participantes.
A ANPD destacou ainda que, no início de março de 2026, às vésperas da vigência do ECA Digital, o Discord alterou o Go Live de modo a torná-lo menos protetivo para menores. Para a Agência, isso viola o dever de proteção desde a concepção.
Dados da SaferNet Brasil citados na medida apontam que as denúncias envolvendo o Discord cresceram 54% nos sete primeiros meses de 2026, de 264 para 406 notificações.
A empresa alegou que não conseguiria cumprir o prazo de três dias úteis e que a ANPD teria extrapolado suas atribuições ao suspender uma atividade. O argumento reabre um debate central: até onde vai a competência da ANPD na aplicação do ECA Digital?
Medidas preventivas são instrumentos conhecidos do direito administrativo e do regime de fiscalização da própria Agência (Resolução CD/ANPD nº 1/2021), cabíveis diante de risco de dano grave, com contraditório diferido. O Discord tem dez dias úteis para recorrer à Superintendência e, depois, ao Conselho Diretor. A medida vale até que a empresa comprove salvaguardas eficazes.

Discord Go live (Imagem: Divulgação).
O Discord é o principal ponto de encontro das comunidades de jogadores. O caso coloca o Direito Gamer no centro da discussão sobre proteção de menores em ambientes de jogo e se conecta a outras frentes que tendem a crescer, como a verificação de idade em lojas de aplicativos.
O recado é claro: o ECA Digital não é lei morta. A era da autorregulação leniente chegou ao fim, e a forma como a ANPD conduzir este processo, e como o Judiciário revisar suas decisões, vai definir o tom da regulação de plataformas no Brasil nos próximos anos.
O Discord foi bloqueado no Brasil? Não. A ANPD suspendeu apenas a funcionalidade de transmissão ao vivo. O próprio Discord decidiu suspender todos os recursos de vídeo no país enquanto dialoga com a Agência.
Outras plataformas podem sofrer a mesma medida? Sim. Depois do caso Discord, a ANPD passou a avaliar a inclusão de outros serviços. Qualquer plataforma de acesso provável por menores está sujeita ao ECA Digital.
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