

Aquele momento de relaxar ou de se estressar? (Foto: Alena Darmel/Pexels).
Os debates sobre games e saúde mental ganharam força nos últimos anos, especialmente com o crescimento dos eSports, do streaming e da cultura gamer como fenômeno social. Enquanto parte do público ainda associa jogos eletrônicos a isolamento e dependência, pesquisas recentes indicam que o impacto dos games é mais complexo — e pode envolver tanto riscos quanto benefícios psicológicos.
A discussão sobre games e saúde mental exige equilíbrio: jogos podem atuar como ferramenta de socialização, desenvolvimento cognitivo e regulação emocional, mas também podem se tornar fator de estresse quando há uso excessivo ou pressão competitiva intensa.

Mantenha a calma. (Foto: Yan Krukau/Pexels).
Um dos marcos recentes dessa discussão foi o reconhecimento do “transtorno do jogo” (gaming disorder) pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na Classificação Internacional de Doenças (CID-11). Segundo a entidade, o transtorno é caracterizado por padrão persistente de comportamento relacionado a jogos, com perda de controle, prioridade crescente ao jogo em detrimento de outras atividades e continuidade do uso apesar de consequências negativas.
Por outro lado, estudos divulgados pela American Psychological Association (APA) indicam que jogos eletrônicos podem contribuir para habilidades cognitivas, resolução de problemas e cooperação social, especialmente quando utilizados de forma equilibrada.
A questão central, portanto, não é se jogos fazem “bem” ou “mal”, mas em quais contextos, intensidades e perfis de uso eles influenciam a saúde mental.

No sofá pronto para o game. (Foto: Humphrey Muleba/StockSnap).
Para qualificar o debate sobre uso problemático de jogos, é fundamental diferenciar três níveis:
Para a professora e psicóloga Luciane Gobbo Brandão, da Univali, é importante evitar visões simplistas sobre o impacto dos jogos na saúde mental.
“Os jogos eletrônicos, por si só, não são vilões nem heróis. Assim como outras formas de lazer e tecnologia, seus efeitos dependem da forma, da intensidade e do contexto de uso. Quando utilizados de maneira equilibrada, os games podem ser uma importante ferramenta de entretenimento, socialização e até de desenvolvimento cognitivo. No entanto, quando passam a ocupar um espaço excessivo na rotina, substituindo atividades essenciais como sono, estudo, trabalho ou convivência social, podem se tornar prejudiciais. Portanto, a questão central não é o jogo em si, mas a relação que a pessoa estabelece com ele.”

Competição em games. (Foto: Beatriz Braga/Pexels)
Quando analisados sob a perspectiva científica, os games apresentam potenciais benefícios relevantes.
Ambientes online permitem formação de comunidades, amizades e redes de apoio. Jogos cooperativos estimulam comunicação, trabalho em equipe e construção de vínculos — especialmente em contextos nos quais o jogador pode ter dificuldades de socialização presencial.
Segundo Luciane Gobbo Brandão, diversos estudos indicam que os jogos podem contribuir para o desenvolvimento de habilidades importantes.
“Diversos estudos apontam benefícios importantes. Entre eles podemos destacar o desenvolvimento de habilidades cognitivas, como atenção, raciocínio estratégico, tomada de decisão e resolução de problemas. Muitos jogos também estimulam cooperação, trabalho em equipe e comunicação, especialmente em ambientes online. Além disso, os games podem funcionar como um espaço de regulação emocional, oferecendo momentos de relaxamento, diversão e pertencimento social, principalmente para jovens que encontram nas comunidades gamers um espaço de identidade e conexão.”

Foco Total. (Foto: Noland Live/Pexels).
Pesquisas em games e saúde mental indicam que jogos podem melhorar:
Estudos publicados na revista Nature sugerem que determinados jogos de ação podem melhorar processos perceptivos e atenção visual.

Escapar da rotina. (Foto: Matheus Bertelli/Pexels).
Para muitas pessoas, jogar funciona como:
O sentimento de progresso, conquista e pertencimento pode contribuir para autoestima e senso de competência, reforçando o papel dos jogos no bem-estar digital quando utilizados com equilíbrio.
Apesar dos benefícios, os riscos existem — especialmente quando o jogo passa a ser mecanismo exclusivo de enfrentamento emocional.
De acordo com a especialista, os problemas surgem quando a atividade deixa de ser apenas entretenimento.
“O problema surge quando o jogo deixa de ser uma atividade de lazer e passa a se tornar uma forma de fuga constante da realidade. Situações de uso excessivo, perda de controle sobre o tempo de jogo, prejuízo nas relações sociais, no desempenho acadêmico ou profissional, e negligência com necessidades básicas como alimentação e sono são sinais de alerta. Em alguns casos, o jogo pode se tornar uma estratégia para lidar com sofrimento emocional, ansiedade ou solidão, o que exige atenção e cuidado.”

É só um jogo? (Foto: Himanshu Singh/Pexels).
No universo competitivo, a relação entre eSports e saúde mental torna-se ainda mais complexa. Atletas profissionais enfrentam:
Segundo a psicóloga, o acompanhamento profissional também é importante nesse cenário competitivo.
“Nos eSports, o psicólogo tem um papel semelhante ao que ocorre em outras modalidades esportivas. Ele atua no desenvolvimento de habilidades psicológicas como foco, controle da ansiedade, tomada de decisão sob pressão, regulação emocional e trabalho em equipe. Além disso, também contribui para a construção de rotinas mais saudáveis, prevenindo esgotamento, estresse competitivo e problemas relacionados ao excesso de treinamento ou exposição digital.”
Alguns sinais de alerta incluem:
Ao falar sobre sinais de uso problemático, Luciane Gobbo Brandão explica:
“Alguns sinais importantes incluem: irritabilidade quando não é possível jogar, dificuldade em reduzir o tempo de jogo, isolamento social, queda no rendimento escolar ou profissional, inversão do ciclo de sono e abandono de outras atividades que antes eram significativas. O ponto central é observar se o jogo passou a comprometer o funcionamento saudável da vida cotidiana.”
A atuação da Psicologia no universo gamer envolve múltiplas frentes:
Nesse cenário, instituições de ensino superior também contribuem para ampliar a compreensão científica sobre o tema.
“A universidade tem um papel fundamental ao produzir conhecimento científico sobre o impacto das tecnologias e dos games na saúde mental. Isso inclui pesquisas sobre comportamento digital, bem-estar, dependência tecnológica e novas formas de sociabilidade online. Além disso, as instituições de ensino superior contribuem formando profissionais preparados para compreender os fenômenos contemporâneos, como o universo gamer, sem preconceitos e com base em evidências científicas”, afirma Luciane Gobbo Brandão.

Nem herói, nem vilão, apensa games e saúde mental. (Foto: Vitaly Gariev/Unsplash).
A polarização entre “vilões” e “aliados” simplifica um tema que é, por natureza, multifatorial. Jogos eletrônicos não são, por si só, causa de adoecimento — mas também não são solução universal para o bem-estar.
O impacto depende de fatores como:
Assim como outras formas de mídia e lazer, os games exigem equilíbrio e educação para o uso consciente.
Para a psicóloga, o debate público sobre jogos e saúde mental precisa superar visões simplificadas.
“Acredito que a discussão sobre games e saúde mental precisa superar a lógica simplista de ‘vilão ou aliado’. Os jogos fazem parte da cultura contemporânea e da vida de milhões de pessoas. O desafio está em promover educação digital, equilíbrio e consciência sobre o uso da tecnologia. Quando existe esse equilíbrio, os games podem ser uma poderosa ferramenta de diversão, aprendizagem e conexão entre pessoas.”
No fim das contas, os games podem ser aliados do bem-estar — desde que integrados a uma rotina equilibrada e acompanhados de consciência crítica. O desafio não está apenas no controle do tempo de tela, mas na construção de uma relação saudável com o universo digital que, cada vez mais, faz parte da vida contemporânea.
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