
Em uma era dominada por telas, jogos online e experiências digitais cada vez mais complexas, um movimento aparentemente inesperado ganhou força: o crescimento dos jogos de tabuleiro modernos e da cultura dos boardgames no Brasil. Muito além de uma nostalgia pelos clássicos da infância, os boardgames modernos se consolidaram como um fenômeno cultural que reúne comunidades, estimula criatividade e fortalece a convivência social.

A alegria de juntar amigos e jogar um boardgame. (Foto: Pexels/
cottonbro studio).
Nos últimos anos, clubes de jogos, eventos presenciais e cafés lúdicos se multiplicaram pelo país, criando espaços onde jogadores se encontram para compartilhar experiências analógicas. O que antes era visto apenas como passatempo doméstico hoje se tornou parte de uma cultura mais ampla de interação social e construção coletiva de conhecimento.
Esse movimento também dialoga com valores presentes em ambientes acadêmicos e criativos, nos quais a troca de ideias, a colaboração e a experimentação são elementos centrais. Assim como em uma mesa de jogo, o aprendizado muitas vezes nasce da interação entre diferentes perspectivas.
O ressurgimento dos boardgames no Brasil não aconteceu por acaso. Uma combinação de fatores culturais, tecnológicos e sociais ajudou a impulsionar esse crescimento, aproximando novas gerações de uma forma de entretenimento baseada na presença e na interação direta.

Um Catan entre amigos. (Foto: Divulgação/Catan).
Segundo o professor Eduardo Napoleão, do curso de Design de Games da Univali, a própria trajetória das gerações atuais ajuda a explicar esse fenômeno.
“No Brasil temos hoje no mercado de trabalho gerações que cresceram jogando os jogos de tabuleiro clássicos, e muitas dessas pessoas cresceram criando os seus próprios jogos ou querendo jogar com a família ou amigos os jogos novos. Melhorias tecnológicas, maior facilidade de vendas por redes sociais e financiamento coletivo, maior acesso à internet e consequente criação de grupos online também colaboraram com essa questão.”
Para o professor Tiago Vinicius Ficagna, também do curso de Design de Games da Univali, o crescimento também reflete uma mudança de comportamento recente.
“Estamos vivendo um momento de ‘detox digital’. Há um cansaço das telas e das notificações, e os jogos de tabuleiro oferecem uma experiência mais direta, com interação real e olho no olho.”
Ele também destaca fatores de mercado e produção.
“A tradução de jogos eliminou barreiras linguísticas, e o Brasil começou a produzir mais títulos próprios, conectados à nossa cultura. Isso aproxima novos jogadores, apesar de o custo ainda ser um desafio em alguns casos.”
Esse cenário permitiu que jogos modernos chegassem com mais facilidade ao público brasileiro. Títulos como Catan, Ticket to Ride e Carcassonne ajudaram a apresentar um novo tipo de experiência: regras acessíveis, forte componente estratégico e partidas que valorizam interação entre jogadores.
Diferentemente de muitos jogos tradicionais, esses títulos também exploram narrativas, gestão de recursos e cooperação, abrindo espaço para experiências mais variadas e profundas.
O crescimento dos jogos de tabuleiro no Brasil também depende diretamente da força das comunidades presenciais e online.
Se os jogos são o ponto de partida, as comunidades são o verdadeiro motor desse crescimento. Em cidades de diferentes tamanhos, grupos de jogadores organizam encontros semanais, campeonatos e eventos que ajudam a expandir a cultura dos boardgames.
Para Eduardo Napoleão, essa dimensão coletiva é essencial para a sobrevivência do hobby.
“Construção de projeto, visibilidade, comércio. Os jogos precisam criar e manter comunidades no seu entorno para que existam e continuem existindo, presencial ou online.”
Tiago reforça o papel central dessas comunidades.
“Eventos funcionam como um ‘test drive’. Você experimenta jogos e aprende com outras pessoas, sem precisar enfrentar sozinho regras complexas.”
Ele observa que o ambiente também vem se tornando mais acessível.
“Ainda existem grupos mais fechados, mas a expansão de eventos públicos e luderias está tornando o hobby mais acolhedor e próximo do cotidiano das pessoas.”
Essas comunidades funcionam como pontos de encontro para jogadores iniciantes e veteranos. Ali, novos títulos são apresentados, estratégias são discutidas e amizades são construídas em torno de experiências compartilhadas.
Além disso, redes sociais e plataformas digitais facilitaram a organização desses grupos. Comunidades online ajudam a divulgar eventos, compartilhar regras e apresentar novos jogos, enquanto os encontros presenciais transformam essa conexão digital em convivência real.
Outro elemento importante do crescimento dos jogos de tabuleiro no Brasil é o surgimento de espaços dedicados à prática do hobby. Cafés lúdicos, bares temáticos e lojas especializadas passaram a oferecer mesas de jogo, bibliotecas de títulos e eventos regulares.
Esses ambientes funcionam como pontos de encontro para quem quer experimentar jogos novos ou simplesmente passar algumas horas em companhia de outros jogadores.

Muita gente no Diversão Offline 2025. (Foto: Divulgação DOFF 2025).
Eventos maiores também têm ganhado destaque. Convenções e encontros regionais reúnem designers independentes, editoras e comunidades de boardgames, criando um ecossistema que mistura entretenimento, criação e empreendedorismo.
Para muitos participantes, esses eventos são mais do que uma feira de jogos: são espaços de troca cultural, aprendizado e experimentação.
Em um contexto cada vez mais digital, os jogos de tabuleiro oferecem algo que muitas experiências online não conseguem reproduzir completamente: a convivência direta.
Sentar ao redor de uma mesa, discutir estratégias, negociar recursos ou simplesmente rir de uma jogada inesperada cria uma dinâmica social que fortalece vínculos entre jogadores.
Segundo Eduardo Napoleão, esse aspecto já faz parte do próprio design dos jogos.
“Em um primeiro momento, a partir do seu game design – incluindo as regras, artes, materiais, o contexto proposto etc. Por vezes a própria existência do boardgame no centro de um espaço de convivência entre amigos já é o suficiente para que esses estímulos aconteçam.”
Mesmo jogos competitivos acabam incentivando conversas, negociações e interações constantes. Em muitos casos, o jogo funciona como um catalisador social, criando um ambiente onde ideias e histórias circulam naturalmente.
Para Tiago, a interação presencial é um dos principais diferenciais.
“Diferente do online, a reação aqui é imediata. Jogos cooperativos exigem escuta, negociação e empatia em tempo real.”
Ele destaca ainda o impacto nas relações.
“Você conhece as pessoas vendo como elas jogam. Isso fortalece laços familiares, amizades e até relações profissionais.”
Os jogos de tabuleiro modernos também estimulam habilidades que vão além do entretenimento. Planejamento estratégico, pensamento crítico, criatividade e comunicação são frequentemente necessários para alcançar objetivos dentro das partidas.
Jogos cooperativos, por exemplo, exigem que jogadores discutam soluções em conjunto. Já títulos competitivos podem incentivar negociações, alianças temporárias e análise de risco.
Esse tipo de dinâmica cria um ambiente propício para o desenvolvimento de habilidades sociais e cognitivas. Mesmo em jogos mais leves, a interação entre participantes acaba estimulando a troca de ideias e diferentes formas de resolver problemas.
Essa capacidade de estimular discussão e colaboração faz com que os boardgames também sejam vistos como ferramentas potenciais em contextos educacionais.
Para Eduardo Napoleão, os jogos podem funcionar como suporte dentro de metodologias estruturadas de aprendizado coletivo.
“Acredito que boardgames possam ser utilizados como mídias inseridas em uma metodologia organizada focada em aprendizado coletivo. Por exemplo, se necessitamos treinar uma equipe em uma questão específica, e colocá-las em uma situação na qual precisem discutir possíveis soluções para a resolução de um problema, podemos criar um jogo que sirva como mídia de suporte para que os objetivos propostos na metodologia venham, de fato, a acontecer.”
Tiago vê os jogos como ferramentas naturais de aprendizado.
“O jogo é um laboratório seguro para errar. A prática e a emoção tornam o aprendizado mais profundo do que métodos passivos.”
Ele também aponta uma mudança no papel do professor.
“Quando o jogo entra em cena, o educador atua mais como mediador da experiência do que como expositor.”

Interagir e conviver, experiências essenciais. (Foto: Pexels/Pavel Danilyuk).
O espírito colaborativo presente nas mesas de boardgame também encontra paralelo em ambientes acadêmicos. Universidades funcionam como espaços de encontro entre ideias, perspectivas e experiências diversas.
Esse ambiente colaborativo também se reflete em instituições como a Univali, onde a troca constante entre alunos e professores, o desenvolvimento de projetos em grupo e a valorização da criatividade fazem parte da experiência acadêmica.
Para Eduardo Napoleão, a construção coletiva é parte fundamental da vida universitária.
“Nada acontece de maneira isolada no ambiente universitário. A construção de espaços de discussão, eventos, feiras científicas, o estímulo ao desenvolvimento do pensamento crítico em conjunto com o criativo podem contribuir para que valores de comunidade e construção conjunta possam florescer, de fato, em ambientes acadêmicos.”
Nesse sentido, a dinâmica dos jogos de tabuleiro pode dialogar diretamente com práticas de ensino baseadas em colaboração, experimentação e troca constante entre estudantes e professores.
Ambientes universitários que incentivam projetos em grupo, debates e iniciativas criativas acabam reproduzindo, em certa medida, o mesmo espírito de comunidade presente nas mesas de jogo.
Segundo Tiago, esse modelo se encaixa naturalmente no ambiente acadêmico.
“A universidade é um espaço ideal para integrar diferentes áreas em experiências práticas e colaborativas. Ainda existe certa resistência, principalmente pela ideia de que jogos são algo infantil, mas isso vem mudando com iniciativas como ludotecas e projetos acadêmicos. É um processo de amadurecimento — cada vez mais vemos abertura para esse tipo de abordagem.”
O crescimento dos jogos de tabuleiro no Brasil mostra que, mesmo em um mundo cada vez mais digital, ainda existe espaço para experiências analógicas baseadas em convivência e criatividade.

Concentração, alegria e convivência. (Foto: Divulgação/Doff 2025).
Mais do que entretenimento, os boardgames funcionam como catalisadores sociais, aproximando pessoas em torno de desafios, histórias e decisões compartilhadas.
Comunidades organizadas, eventos de jogos de tabuleiro presenciais e novos espaços dedicados ao hobby mostram que esse movimento está longe de ser passageiro. Pelo contrário: ele revela um interesse crescente por experiências que valorizam interação humana, pensamento estratégico e construção coletiva.
Assim como em uma boa partida, o mais importante talvez não seja apenas vencer — mas participar da jornada, compartilhar ideias e construir algo em conjunto.
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