
Os jogos sempre foram espaços de imaginação e estratégia, mas poucos gêneros exploram tanto a narrativa quanto o RPG de mesa. Em torno de uma mesa, jogadores constroem histórias coletivas, interpretam personagens e enfrentam desafios narrativos que exigem comunicação clara, argumentação e improviso constante.

Miniaturas, lápis e dados na ajuda da comunicação. (Foto: Will Wright/Pexels).
Muito além de um passatempo da cultura geek, o RPG de mesa também se tornou objeto de interesse em ambientes educacionais e acadêmicos. Em instituições como a Universidade do Vale do Itajaí (Univali), por exemplo, abordagens ligadas à narrativa, comunicação e pensamento crítico aparecem cada vez mais conectadas a práticas que estimulam a participação ativa dos estudantes.
A prática envolve competências como criatividade, empatia, resolução de conflitos e construção narrativa — habilidades que também são essenciais em áreas como Direito, Comunicação, Design e gestão de equipes.
Esse caráter narrativo e colaborativo aproxima o RPG de metodologias que estimulam pensamento crítico e expressão verbal, mostrando como jogos podem contribuir para o desenvolvimento de competências valorizadas no mundo profissional.

Livros, regras e imaginação. (Foto: Stephen Hardy/Pexels).
RPG significa Role-Playing Game, ou jogo de interpretação de papéis. Diferente dos videogames ou jogos de tabuleiro tradicionais, o RPG de mesa é estruturado como uma experiência narrativa colaborativa.
Um dos participantes assume o papel de mestre do jogo, responsável por apresentar o mundo, os desafios e os acontecimentos da história. Os demais jogadores interpretam personagens dentro desse universo, tomando decisões, dialogando entre si e reagindo às situações criadas durante a aventura.
Cada campanha funciona quase como uma história interativa. Os jogadores descrevem ações, negociam estratégias e interpretam seus personagens, enquanto o mestre adapta a narrativa de acordo com essas escolhas.
Essa dinâmica transforma o RPG em uma espécie de laboratório narrativo. Em vez de seguir um roteiro rígido, a história se constrói coletivamente a partir das decisões dos participantes, exigindo comunicação constante e capacidade de improviso.

A criatividade é mágica. (Foto: Michele Raffoni/Pexels).
O storytelling é um dos pilares do RPG de mesa. A narrativa não está apenas no cenário ou na trama inicial — ela emerge das interações entre os jogadores.
Durante uma campanha, situações inesperadas surgem o tempo todo: negociações com personagens fictícios, resolução de conflitos, investigação de mistérios ou decisões estratégicas que podem alterar o rumo da história.
“O RPG de mesa depende de uma dinâmica muito forte de interação verbal constante entre os participantes”, explica o professor Igor Baranenko, do curso de Design de Games da Univali.
Ao longo das sessões, os jogadores precisam descrever ações, justificar decisões e negociar estratégias dentro da narrativa — um processo que fortalece a organização do pensamento e a expressão de ideias.
O professor Tiago Vinicius Ficagna, também do curso de Design de Games da Univali, complementa esse ponto ao destacar que “o RPG exige escuta ativa e articulação de ideias em tempo real”, já que os jogadores precisam negociar entre si, persuadir personagens e defender a lógica de suas ações diante do mestre.
Na prática, isso contribui para formar participantes mais rápidos na argumentação e adaptáveis em situações de diálogo. Ainda assim, ele aponta que o ambiente pode ser desafiador no início para pessoas mais tímidas ou em grupos com jogadores dominantes, o que exige mediação adequada.
Mesmo com esses desafios, o cenário vem evoluindo. Segundo Tiago, o crescimento da cultura do RPG tende a tornar as mesas mais inclusivas, com experiências pensadas para diferentes perfis de jogadores — movimento que já começa a aparecer também em treinamentos corporativos voltados ao desenvolvimento de soft skills.

Um mundo de conhecimento. (Foto: Vincent M.A. Janssen/Pexels).
Além da comunicação, campanhas de RPG estimulam diversas soft skills — competências socioemocionais cada vez mais valorizadas no mercado de trabalho.
Entre elas estão empatia, liderança, resolução de conflitos e trabalho em equipe.
“Do ponto de vista cognitivo, os jogadores exercitam imaginação, pensamento estratégico, memória, tomada de decisão e resolução de problemas”, destaca Igor Baranenko.
Ao observar de forma mais ampla quais habilidades cognitivas e sociais são estimuladas durante uma campanha de RPG, o professor Tiago Vinicius Ficagna aponta outros aspectos importantes: “cognitivamente, o RPG estimula memória, probabilidade matemática, leitura e resolução complexa de problemas”.
No campo social, o jogo favorece a empatia — especialmente ao interpretar personagens diferentes de si — e o fortalecimento do trabalho em equipe e da inteligência emocional.
Por outro lado, o professor alerta que campanhas mais densas podem gerar sobrecarga cognitiva em jogadores iniciantes, além de situações em que emoções do jogo se misturam com sentimentos reais, o que pode gerar conflitos. Nesse contexto, o papel do mestre se torna essencial para equilibrar a experiência.
Tiago também chama atenção para um uso crescente do RPG fora do entretenimento: a chamada Geek Therapy, abordagem em que profissionais utilizam jogos narrativos para ajudar no desenvolvimento de habilidades sociais em ambientes controlados.
O vínculo entre jogos narrativos e desenvolvimento acadêmico tem ganhado destaque em estudos sobre aprendizagem e criatividade.
Para Igor Baranenko, essa relação é clara:
“Ambas dependem da construção e interpretação de narrativas de forma clara, persuasiva e estruturada”.
Tiago Ficagna reforça essa conexão ao traçar um paralelo direto com o mercado profissional. Atividades como defender um caso no Direito ou construir a narrativa de uma marca na Comunicação utilizam princípios muito semelhantes aos do RPG: organização lógica, adaptação ao público e construção de engajamento.
Ele destaca, no entanto, uma diferença importante: enquanto o RPG permite maior espaço para improviso e até para o fator sorte, áreas profissionais exigem rigor técnico e consistência factual. Ainda assim, o exercício narrativo proporcionado pelos jogos ajuda a desenvolver a desenvoltura necessária para esses contextos.
Outro ponto relevante é a ascensão de práticas como Legal Design e Visual Law, que incorporam narrativa e elementos visuais ao Direito — uma tendência que aproxima ainda mais o universo acadêmico das dinâmicas exploradas nos RPGs.
A presença de metodologias baseadas em jogos e narrativas vem crescendo no ensino superior.
Ao incorporar simulações e experiências interativas, o ensino estimula resolução de problemas, pensamento crítico e criatividade, além de favorecer a aprendizagem por tentativa e erro.
Como resume Igor Baranenko, “o caráter lúdico não apenas torna o processo de aprendizagem mais motivador, mas também contribui para uma construção de conhecimento mais significativa e participativa”.
Tiago Ficagna destaca que “o lúdico diminui o medo do erro”, já que o estudante deixa de estar em um ambiente punitivo e passa a experimentar hipóteses de forma mais livre.
Mas existem desafios importantes, como a dificuldade de avaliação em atividades criativas e a resistência de parte do meio acadêmico, que ainda associa o lúdico à falta de rigor.
Mesmo assim, o avanço da gamificação e dos chamados serious games já é realidade em universidades de ponta, especialmente em simulações práticas em áreas como Medicina e Engenharia.
Nesse cenário, instituições como a Univali têm investido em abordagens que conectam narrativa, estratégia e comunicação, preparando acadêmicos para desafios reais do mercado.

Muitas narrativas para explorar no RPG de Mesa. (Foto: SayaPhotos/Pixabay).
Uma campanha de RPG pode durar horas, semanas ou até anos — e, nesse tempo, constrói experiências complexas de comunicação e tomada de decisão.
Práticas baseadas em narrativa incentivam a organização de ideias e a construção de argumentos, enquanto o improviso desenvolve flexibilidade cognitiva e capacidade de adaptação.
Segundo o professor Tiago Ficagna, esse tipo de experiência prepara o estudante para um cenário essencial, “o mundo real não segue um roteiro”, o que torna esse tipo de prática ainda mais relevante na formação acadêmica. Ele também destaca que essas habilidades são especialmente úteis em momentos como apresentações acadêmicas e banca de TCC.
Ainda assim, ele faz um alerta importante: o improviso sem base teórica pode se tornar superficial. O equilíbrio entre conteúdo e forma é essencial.
Essa lógica também aparece na cultura do pitch, cada vez mais presente no ambiente universitário e no mercado, em que profissionais precisam apresentar ideias de forma clara, objetiva e envolvente em poucos minutos.
O crescimento da cultura geek e da indústria criativa ampliou o interesse por práticas que unem entretenimento e aprendizagem.
“O acadêmico deixa de ser apenas um receptor de conteúdo e passa a atuar como agente ativo na construção do conhecimento”, destaca Igor Baranenko.
Ao integrar narrativa, estratégia e colaboração, o RPG de mesa mostra que aprender pode ser tão envolvente quanto jogar — e, muitas vezes, ainda mais significativo.
Para quem deseja explorar esse tipo de abordagem na prática, cursos nas áreas de Comunicação, Design e Tecnologia vêm incorporando metodologias inovadoras que unem teoria e experiência.
Para saber mais sobre essas formações, acesse o site da Univali. E para continuar acompanhando conteúdos sobre games, cultura geek e inovação, siga ligado na ND Games.